O primeiro homem a levar uma bandeira de Portugal para dentro de um octógono do UFC voltou a casa para se reencontrar no caminho das vitórias. O que faz um profissional de alto nível com acesso aos melhores treinadores do mundo nos Estados Unidos querer treinar num rés-do-chão minúsculo num prédio da Damaia?

Abril 2021

Abril 2021

Rui Gustavo
Texto
José Cedovim Pinto
Vídeo
Nuno Botelho
Fotografia

É difícil imaginar um ginásio para lutadores profissionais de topo por detrás daquela pequena porta de alumínio branco no rés-do-chão de um prédio igual aos outros numa rua da Damaia, nos subúrbios de Lisboa. Cá fora, o som do funk brasileiro confunde-se com o barulho ritmado das luvas de boxe a bater em plastrons, “pac, pac, pac”. Lá dentro, em pouco mais de 50 metros quadrados, oito homens trocam golpes aos pares e o suor da luta dá ao pequeno espaço o ambiente de uma sauna sem a parte dos bancos de madeira clara para relaxar.

Há um par que se destaca: um homem baixinho de calções e t-shirt dá instruções precisas a um grandalhão de 130 quilos e 1,85 metros: “1,2”, “dá a primeira”, “reage sempre ao toque”, “sai logo”. Em vez de luvas, tem uns plastrons grandes nas mãos, os “paus” que usa para receber os golpes do pupilo, Yorgan de Castro, o cabo-verdiano que é profissional do UFC, a milionária organização de Mix Martial Arts, e leva sempre para o octógono uma bandeira de Portugal cosida a uma de Cabo Verde nas costas. “Nasci em Cabo Verde mas nasci para a luta em Portugal. São os meus dois países” diz a ofegar, numa pausa da tareia a que o homem pequeno e robusto o sujeita.

Tal como nas lutas, cada round de treino dura cinco minutos e só acaba quando soa uma espécie de buzina barulhenta impossível de ignorar. A pausa é aproveitada por todos para respirar. “Toda a minha vida treinei em ginásios rústicos, não é o ginásio que faz o lutador”, explica Yorgan que vive em Massachusetts, nos Estados Unidos, há oito anos onde tem acesso aos melhores centros de treino e treinadores do mundo. Consegue sustentar a família e ter uma vida confortável só com o salário de lutador profissional, um caso muito raro em Portugal. “Fui atrás do sonho impossível e consegui”, ri-se como quem ainda não acredita bem no que lhe está a acontecer.

O UFC é uma das maiores organizações desportivas do mundo e um negócio que movimenta milhões de dólares por ano em direitos televisivos, merchandising e patrocínios. Apenas um exemplo: para escapar à pandemia de covid-19, a organização americana vendida a um conglomerado de empresas asiáticas por quatro mil milhões de dólares (3,3 mil milhões de euros) construiu um complexo de raiz numa ilha nos Emirados Árabes Unidos, a Fight Island, para realizar os eventos de forma mais segura e poder continuar a faturar. Foi dos últimos desportos a parar (obrigado pelas autoridades de saúde americanas) e um dos primeiros a recomeçar.

As lutas de MMA – uma mistura de vários desportos de combate, como o boxe, o judo ou a luta livre, que pode atingir uma violência extrema - são vistas no mundo inteiro, quase sempre em pay-per-view, e o sucesso é de tal forma esmagador que até Mike Tyson, um dos grandes da história do boxe, já foi obrigado a admitir: “Estão a dar-nos um pontapé no rabo. Temos de os copiar”.

O início

A história de Yorgan de Castro começou em 2005 quando o lutador do Mindelo, a capital da ilha de São Vicente, tinha pouco mais de 18 anos e trabalhava na loja de produtos eletrónicos Media Market, em Lisboa, para onde tinha emigrado de Cabo Verde. “Percebi que em Cabo Verde a minha vida não ia chegar a lado nenhum e vim”. José “Bogas“ Oliveira era um lutador e treinador profissional que compensava a impossibilidade de viver exclusivamente das lutas em Portugal com um trabalho como agente comercial. “Ia ao Media Market muitas vezes retirar e colocar produtos e tinha de me identificar com os seguranças. Foi assim que conheci o Yorgan”. O físico – “sempre fui grande” - era “o ideal” e dias depois o jovem mindelense, filho de uma cabo-verdiana e de um português, já estava a treinar no ginásio de “Bogas”, que funcionava então numas instalações da Junta de Freguesia da Damaia.

“Bater qualquer um bate, foi quando levei o primeiro soco a sério que percebi que nasci para isto”, ri-se o lutador. “Quis subir outra vez para o ringue imediatamente”

Yorgan numa sessão de sparring

A campainha desagradável toca outra vez e os lutadores rodam os pares. Um miúdo louro baixinho faz “sparring” com Yorgan e atira-se com vontade ao homem com o dobro do tamanho, da experiência e da capacidade. “Medo? Senti-me é motivado”, diz Mauro que está sem trabalho e decidiu dedicar-se a cem por cento aos treinos de kickboxing. “Só o conhecia da televisão e foi um prazer poder treinar com ele. Tentei aproveitar ao máximo”.

Vendo bem, lutam todos com uma intensidade inesperada para um treino a uma segunda-feira de manhã. “Têm todos cinturões”, explica “Bogas”. “Não lhes peço que ganhem sempre, mas peço-lhes que tentem, que lutem com intensidade, que deem tudo”.

Mas o sucesso em Portugal não chega para viver. Segundo este treinador e ex-lutador, um atleta de topo consegue €2500 por uma luta. Daí tem de pagar ao treinador – normalmente 20 por cento - e assumir todas as despesas com suplementos de treino, equipamento e deslocações. “Leva para casa uns 1500 euros. E estou a falar de profissionais de topo. A média de um lutador que começa não passa dos 300 euros”. “Bogas” aponta para os seus homens que trocam socos e pontapés com mais potência do que um treino poderia supor e dispara: “Estes têm todos cinturões. São campeões. E nenhum vive disto. Não dá”.

Yorgan percebeu isso há oito anos. “Um tio que vivia nos Estados Unidos sabia que eu treinava, o UFC estava a explodir e desafiou-me para ir para lá. E eu fui”. Já casado com uma portuguesa, o lutador foi viver para Fall River. Começou a carreira profissional em organizações mais pequenas e conciliava a carreira com trabalhos de ocasião.

Conseguiu participar num programa de televisão que servia de captação para o UFC e com um KO quase inédito (venceu um adversário com pontapés nas pernas) entrou finalmente na maior organização de lutas mundial. Um negócio que vale hoje sete mil milhões de dólares mas que não é conhecida por ser especialmente generosa com os seus lutadores, o que gera conflitos com as estrelas maiores como “The Notorius” Conor McGregor, o ex-campeão irlandês que recebeu 85 milhões de dólares para um combate de boxe (que perdeu, naturalmente) contra Floyd Mayweather. Um valor impensável para o UFC.

“No início, tive de conciliar a carreira com o trabalho. Era segurança num liceu em Fall River super-pacífico onde me deram sempre a maior liberdade para treinar. Mas agora sou 100 por cento profissional. Quanto é que ganho? Depende das lutas que fizer. Mas consigo uns 200 mil dólares por ano. Mas o mais importante é que treino num bom ginásio, tenho um treinador de jiu jitsu, outro de kickboxing e outro só de boxe. E ainda um só para o condicionamento físico”, conta Yorgan.

E porque é que um lutador destes está sentado no chão de um pequeno ginásio na Damaia a tentar recuperar o fôlego depois de mais cinco minutos de socos, pontapés e esquivas às ordens de um treinador que tem mesmo de ter outro trabalho para sobreviver

O renascimento

A carreira de Yorgan de Castro no UFC começou com um direto meio atabalhoado mas em cheio na cara de Justin “Bad Man” Tafa que deixou o lutador australiano imediatamente KO. “Qual é sensação? Nocautear alguém é tão bom como sexo. E só não digo melhor porque senão a minha mulher mata-me [risos]. Há qualquer coisa no olhar do adversário quando acertamos mesmo que já sabemos que acabou. E essa sensação faz de ti um super-homem. E isso pode não ser bom. Porque é falso. Ninguém é um super-homem. A sensação de levar um KO não sei. Nunca fui nocauteado”.

O momento de pausa do gigante

Yorgan não é exatamente aquilo que se espera de um lutador. Tem um ar tranquilo e até doce, garante que nunca teve uma luta fora do octógono “felizmente”, e olha para este desporto em que é comum que o chão do octógono acabe sempre sujo de sangue com uma frieza desarmante: “Eu vejo isto como arte. Violência é andar à batatada no meio da rua. Tens dois atletas altamente preparados e qualificados para um desporto cujo objetivo é infligir dor e o maior estrago possível ao adversário. E isso é lindo de se ver”.

Para além de lutador, Yorgan é acima de tudo fã do desporto. Fala com entusiasmo de outros lutadores, segue as lutas todas em direto e comenta-as nas redes sociais. E cobre de elogios Manuel Kape, o lutador nascido em Angola que se tornou o primeiro português a entrar para o UFC. “Ele é muito bom. Vai longe. Eu optei pela nacionalidade cabo-verdiana porque eles não aceitam duplas nacionalidades e escolhi o país onde nasci. Mas sou tão português como cabo-verdiano”.

Depois da primeira luta no UFC, seguiu-se o profissionalismo pleno e o sonho finalmente concretizado. “Eu nem queria acreditar. Estava no meio de tipos que admiro muito e que só via na televisão. Eu pedia-lhes para tirarem fotos comigo e o meu treinador repreendia-me: tu estás no cartaz no co-main event, estás ao nível deles, não andes a pedir fotos. Mas eu protestava: sou muito fã dos gajos”.

Antes das lutas, são frequentes as provocações, o “trash talk” e até o confronto físico nas pesagens ou nas conferências de imprensa. “Isso faz parte do espetáculo. A esmagadora maioria dos lutadores tem origens pobres e nos bastidores não há qualquer arrogância. São pessoas humildes. Falo por experiência própria. É um meio saudável”.

Nas duas lutas seguintes, veio o sabor amargo da derrota. “Contra o Greg Hardy parti um pé e joguei lesionado. Disse ao meu treinador que tinha partido o pé que estava cheio de dores e ele, que é maluco, disse-me que ainda tinha dois assaltos para fazer e que tinha de aguentar.

Aquilo é assim”.thanks

Na terceira luta, contra o brasileiro Carlos Felipe, nova derrota, por decisão unânime do júri. E uma falta de agressividade que começou a mostrar-se preocupante. “Eu não exijo aos meus lutadores que ganhem. Exijo que deem tudo. Que sejam agressivos. Por isso é que treinam assim”, insiste José Bogas. E por isso é que Yorgan decidiu regressar a casa.

O mentor

O lutador cansado e suado está sentado numa espécie de banqueta usada para treinar saltos e agilidade. Existe nos ginásios comuns e nestas tocas onde tanto treinam lutadores profissionais como amadores quarentões à procura da boa forma e de despejar o stress nos sacos de boxe pendurados no teto. Homens e mulheres de todas as idades. “Estava a precisar de me reconstruir. Como é que se diz? O meu “mindset” estava mesmo em baixo e o melhor é voltar onde tudo começou”. Yorgan tem agora 33 anos, uma filha nascida nos Estados Unidos e sabe que tem mais cinco anos para conseguir fama e dinheiro. O auge destes atletas é atingido depois dos trinta anos e há campeões com quase quarenta. “Mas ninguém aguenta sofrer mais do que três ou quatro KO”.

Yorgan está em Portugal para umas férias e um dos primeiros telefonemas foi para o velho mestre. “Ele desafiou-me logo para treinar. Todos os dias às oito da manhã. O resto do dia é para a outra família”. “Lá nos Estados Unidos tenho quatro treinadores, é verdade; o nível é outro, é verdade, mas aqui o treinador não é só treinador, é meu amigo. É meu mentor. Não me diz o que fazer mas mostra-me o que resultou com ele. Ele sempre me acompanhou, mesmo à distância. É dos primeiros a mandar-me mensagens antes e depois das lutas e sei que vê todas”.

Nem só de força vive um lutador: flexibilidade importa

Apesar de vestir uma t-shirt do “Bogas Team”, os calções, os chinelos, a força e a violência dos golpes são de um homem do UFC. “Se achas que sabes tudo porque atingiste o pico, estás perdido. Se achas que porque estás no UFC, és mais do que os outros, não és nada. Quando perdi quatro lutas no início da carreira soube sempre que podia voltar aqui. Ele nunca quis saber se eu estava ou não no UFC”.

O UFC tem neste momento perto de 900 lutadores, homens e mulheres sob contrato. Já foram despedidas várias lendas da modalidade depois de algumas derrotas seguidas, como Junior “Cigano” dos Santos, um ex-campeão e Alistair Overeem, um dos melhores da história da modalidade. O público não gosta de perdedores. “Quando ganhas por ko no primeiro combate ficas com a falsa sensação de que és um super-homem. Fiquei parado nas outras duas lutas por causa disto. Aguentei os golpes porque sei que aguento e estive sempre à espera de conseguir o KO, o que não aconteceu.

No dia 10 de abril, Yorgan de Castro volta a entrar no octógono para um combate contra o sírio Jarijs Danho, o “Man Mountain”, alcunha justificada pelos 120 quilos divididos por 1,90 metros. Ao contrário dos anglófilos ou dos brasileiros, que usam o verbo “fight” ou lutar para descrever a interação entre dois lutadores, em Portugal, os aficionados dos desportos de combate usam “jogar”. Porquê? “Porque é disso que se trata. Apesar da violência, é um jogo em que o mais importante e o mais difícil é a parte mental”.

TextoRui Gustavo
FotografiaNuno Botelho
VídeoJosé Cedovim Pinto
Web DesignTiago Pereira Santos
Web DeveloperMaria Romero
Coordenação editorialPedro Candeias, Joana BelezaeJoão Carlos Santos
DireçãoJoão Vieira Pereira

+Veja mais
ⓒ Expresso - Impresa Publishing S.A. 2021