Mantém-te firme, Kol

Em abril de 2017, Pedro Kol era campeão da Europa de kickboxing, na disciplina de K1, quando o italiano Alessandro Moretti o desafiou. Em Roma, o português lesionou-se numa perna, queria continuar, mas os árbitros deram por terminado o combate. Perdeu o título, mas a desforra ficou logo ali combinada. Esta é a caminhada do lutador de 35 anos até ao objetivo que traçou para 2018: recuperar o cinturão de campeão europeu

É quase hora do almoço. Ele conduz tranquilamente o seu automóvel no pequeno percurso que separa a academia que abriu há quase três anos e a sua casa. A hora de almoço não costuma ser a mais nervosa das horas, mas numa avenida larga que, às tantas, se estreita, o seu carro quase encontra a frente de outro. O outro vidro abre-se e de lá não chegam palavras simpáticas. Os jornalistas que o acompanham respondem à letra. É uma discussão de trânsito, quem é que não responde?

Ele não responde. Impávido e sereno, segue o seu caminho.

É possível que o condutor do outro carro não estivesse na posse de algumas informações. É possível que não soubesse que o homem franzino e com cara de bom rapaz a quem dirigiu uns quantos impropérios misturados com o xinfrim de um par de buzinadelas se chamava Pedro Kol, à altura e naquela hora de almoço de início de fevereiro, bicampeão europeu e campeão mundial de kickboxing.

E que, àquela hora, Pedro Kol, o kickboxer tranquilo, de voz suave e corpo disciplinado, estava a meio de mais um dia de preparação para atacar um terceiro título europeu.

“Os desportos de combate dão-te um auto-controlo e uma disciplina incrível”, diz-nos. E nós, que já desconfiávamos, passamos a partir dali a acreditar piamente naquelas palavras.

É terça-feira, dia 6 de fevereiro. Dentro de uma semana e meia, dia 18, Pedro vai disputar o título europeu de K1 -62 kg com o italiano Alessandro Moretti, prato forte do evento Never Give Up II, em pleno Campo Pequeno. Never give up, a forma como os falantes de inglês dizem “nunca desistas”. É o nome do evento e o lema da academia de desportos de combate de Pedro Kol. Uma espécie de mantra de alguém que chegou lá não por ser um predestinado, mas por ter trabalhado muito.

“Tem graça o evento ter esse nome e ser uma desforra, depois de ter acontecido aquilo em Itália”, diz-nos.

“Aquilo” foi, bom, isto: em abril, há um ano, Kol, então dono do cinturão de campeão da Europa, viajou rumo a Roma para responder ao desafio de Moretti, que lhe queria roubar o título.

Durante o combate, um golpe na tíbia da perna direita deixou o português, nascido há 35 anos em Lisboa, a sangrar. Os responsáveis pelo combate, numa decisão que Kol ainda considera ter sido demasiado zelosa, decidiram que estava em causa a saúde do lutador. Deram por terminado o combate: KO técnico e vitória para Moretti.

A desforra ficou logo ali combinada. “No fim do combate ele disse-me: ‘Olha, não queria ter ganho assim’ e falou logo na repetição. Desafiei-o - ainda demora algum tempo, porque o combate tem de ser aprovado pela federação mundial - e pronto, marcou-se tudo”.

Uma semana e meia depois daquele incidente no trânsito lisboeta, Pedro Kol voltou a sangrar. O mesmo golpe, a mesma perna. O bruaá da sala, o dejá vú de quem já viu aquilo em qualquer lado.

Mais de 500 respirações ficaram suspensas naquele momento. Mas desta vez o combate continuou. E Kol deitou Moretti ao chão. Venceu por KO, a poucos segundos do final do 5.º e último round. Foi épico, à trama hollywoodesca: teve sangue, suor e algumas lágrimas de alegria no final. Kol segurou o seu terceiro título de campeão da Europa, teve a sua vingança, junto à família e amigos. A sua vitória mais saborosa, disse ele.

Mas até lá chegar, houve seis meses de trabalho duro.

O Bruce Lee, o Van Damme, as Tartarugas Ninja

Voltemos a 6 de fevereiro.

São 10h da manhã e Pedro Kol está na reta final de uma preparação que começou há meio ano. O dia será longo e começa com um treino de combate na academia Kolmachine, nas Avenidas Novas, em Lisboa. Um “filho” que nasceu há quase três anos, depois de Kol ter decidido deixar um curso em Ciências do Mar e um emprego na área da Engenharia Ambiental para se dedicar a 100% ao kickboxing.

“Rapidamente percebi que a minha paixão era mesmo o desporto e era para isso que me queria virar. Decidi deixar tudo. Lembro-me de falar com os meus pais, de dizer que queria dedicar-me só ao kickboxing. A maior parte das pessoas acharam que eu era um bocadinho maluquinho”, conta o atleta. Mas a vida de engravatado não lhe sabia bem: “Naa, estar num escritório, sentado ao computador… não era para mim”.

Na altura, Kol não tinha dinheiro, mas tinha o sonho. “O meu pai perguntava-me: ‘Mas achas possível viver só do kickboxing?’”, relembra. Estávamos em 2013 e o lutador acreditava que sim: atirou-se a uma pós-graduação em gestão e começou a fazer um business plan com um dos melhores amigos. “Não tinha dinheiro nenhum, mas num mês arranjei os investidores todos que queria. Acreditaram em mim, no meu projeto, porque já acompanhavam o meu trajeto, sabiam que eu era uma referência e que o kickboxing era uma paixão grande - foi assim que avancei com a academia”.

Cinco anos depois de mudar de vida e três anos após a inauguração da academia, ela cá está, sempre cheia. E ainda antes de Kol chegar, já Fernando Fernandes faz os primeiros aquecimentos: alongamentos, flexões.

“É que vem aí o verão...”, brinca o treinador de Pedro Kol.

Fernando Fernandes é uma das maiores figuras da modalidade em Portugal, três vezes campeão da Europa, uma vez campeão mundial no início da década de 90. Quando aos 16 anos Pedro Kol decidiu trocar o taekwondo, que começou a praticar aos 8, pelo kickboxing, foi Fernando que o recebeu no Sporting.

“Epá, conheço o Pedro há uns 20 anos. Quando ele veio ter comigo não sabia quase nada, zero, quase”, diz-nos o técnico de 51 anos. Depois de alguns anos em que os seus caminhos se separaram - sem, no entanto, deixarem de ter contacto - o objetivo de recuperar o título europeu voltou a aproximar treinador e pupilo.

“Entre nós há uma sintonia perfeita. Há um encaixe. É fundamental haver empatia na relações. Entre todas: entre casais, entre pais e filhos, entre um treinador e um atleta. Não quer dizer que os outros treinadores não sejam bons, mas é muito difícil para ele adaptar-se a outro treinador”, assegura.

Fernando Fernandes gosta de lembrar que Pedro Kol “acredita muito nele próprio” e recua aos tempos em que um miúdo de 16 anos lhe chegou ao ginásio para treinar kickboxing: “A nível articular, ele não era o miúdo mais adaptado a este desporto. Mas com muito trabalho, muita determinação e muita continuidade, ele conseguiu”.

Na parede da academia pode ler-se a frase “O trabalho duro bate o talento quando o talento não trabalha no duro”. Não é por acaso.

Pedro Kol sempre foi um apaixonado pelas artes marciais e nem ele sabe explicar muito bem porquê. A família sempre esteve ligada aos desportos equestres (o seu avô, Eduardo Netto de Almeida, chegou a ser reserva nos Jogos Olímpicos de Helsinquia, em 1952), mas desde miúdo que Pedro se entusiasmava com os filmes de Bruce Lee ou de Jean Claude Van Damme. Ou com as Tartarugas Ninja.

“Tudo o que tivesse luta eu adorava e imitava. Sempre que me mascarava era de karateca ou de ninja, qualquer coisa do género”. A família ainda tentou que ele seguisse a equitação com obstáculos, mas ele gostava mesmo era de artes marciais.

“Não tem nada a ver, eu sei”, diz, como que se desculpando pelo “desvio”.

Depois de vários anos a praticar taekwondo, Kol mudou para o kickboxing, que lhe parecia “mais real” que o taekwondo, uma disciplina muito técnica. “Senti a necessidade de algo mais e foi aí que fiz a transição”. Os pais, apesar de inicialmente o terem puxado para o desporto de família, tornaram-se um “apoio a 100%” nas escolhas do filho.

Foram também os pais de Pedro que ajudaram ao reencontro com Fernando Fernandes. “Vai correr bem”, diz-nos o técnico, com um rasgadíssimo sorriso e um brilho nos olhos claros: “Os céus dizem-me que ele ganha”.

Os céus podem dar palpites, mas nada se faz sem treino. Pouco depois de Kol chegar ao ginásio, no seu passo tranquilo, o trabalho começa. E após um pequeno aquecimento, Kol enfaixa as mãos, atleta e treinador sobem para o ringue e começa a dança. A academia é um espaço interior iluminado por uma grande clarabóia cuja luz natural reflete diretamente para o ringue.

É ali que bate o coração da Kolmachine - e é ali onde Pedro Kol trabalha todos os dias para voltar a sagrar-se campeão da Europa. Foge, ataca, foge, ataca. Tudo ainda em câmara lenta. No combate não vai ser assim, mas nesta altura é preciso treinar pormenores. O ritmo começa a aumentar e as indicações de Fernando Fernandes são constantes.

“Velocidade, velocidade, Pedro! Avança!”

Pedro e Fernando vão trabalhando pormenores ao nível da objetividade. “Consoante o adversário também tens de adaptar uma estratégia”, diz o treinador, que nos explica que o treino é sempre feito em “função do timing do combate e do cansaço do atleta”.

Agora ambos afinam as formas de neutralizar as armas do adversário e explorar os seus pontos fracos - neste treino, trabalham reflexos, velocidade, ataque à perna de apoio do rival.

O português sempre foi mais alto que os adversários. “Sou magrinho e alto, o que faz com que tenha muito mais alcance. Mas eles são mais poderosos. Não me interessa muito combater a uma distância muito curta e normalmente trabalho numa distância longa em que eu lhes estou a tocar e eles não me conseguem tocar. É a estratégia que sempre tentei montar nos meus combates”, explica.

Moretti encaixa nessa estratégia: é mais baixo que Kol, mas também bem mais entroncado. E os pontos fortes estão bem identificados. “Ele chuta muito para as pernas, é importante trabalhar nisso. Também avança muito rápido no boxe, mas isso faz com que dê o flanco”, revela o lutador lisboeta, que diz estar mais bem preparado fisicamente do que há um ano.

“Fiz um trabalho muito forte. Acho difícil ele fisicamente estar tão bem quanto eu, porque nunca fiz uma preparação assim”.

Esta última frase iríamos comprovar nesse próprio dia, mais ao final da tarde.

“Empurra-o. Avança mais! Carrega, carrega! A perna não está a avançar Pedro, parece que estás pregado. Vá, mais power.”

Nesta altura da preparação, os treinos já estão mais adaptados às condições do combate. São relativamente rápidos: 40 minutos, quatro a cinco vezes por semana, com picos de grande intensidade. O combate é mais curto - são 20 minutos, separados por cinco rounds de três minutos mais um minuto de paragem entre eles.

Vinte minutos. Pedro diz que, a combater, “isso é uma vida”.

“Quando começámos o volume era grande e a intensidade mais reduzida. Muito volume porque era preciso fazer as coisas mais devagar, aperfeiçoar, corrigir. E pouca intensidade porque ainda não conseguia chegar lá”, explica Pedro no final do treino de combate.

“Depois as coisas começaram a ficar mais afinadas: aí comecei a reduzir o volume e a aumentar a intensidade. No início ficava ali no ringue às vezes uma hora e tal sem parar, sem nenhuma pausa, mas era muito menos intenso”, continua.

Fernando Fernandes relembra como encontrou Pedro há seis meses: “Foi um treino de correção. O Pedro estava preso, sem coordenação. Foi um processo gradual, até chegarmos a este ponto. Estamos a afinar, é como se estivessemos a afinar uma viola”. E, na última semana, é para, como se costuma dizer, dar tudo? “Não, nada disso. Pelo contrário: a última semana é para recuperar energias”.

Os três vectores

O descanso, diga-se, é tão ou mais importante que o treino. Aliás, Pedro Kol diz-nos que assenta a sua preparação para o combate em três vectores: “Treino, alimentação e descanso”.

O seu treinador lembra que para lá da estratégia de combate, o treino técnico e a parte psicológica, a capacidade de recuperação também é essencial nesta fase. “Muitas vezes até os treinadores de futebol profissional se esquecem dessa parte: o descanso necessário de jogo para jogo ou de treino para treino. Isso é fundamental para o sucesso, porque a motivação vem da energia. Se um atleta estiver fatigado, o seu grau de entusiasmo e de alegria não é o mesmo”. Fernando Fernandes tem 25 anos de experiência a treinar no Sporting e uns quantos títulos europeus e mundiais que o fazem falar com propriedade.

Nos últimos meses, Kol não abdica de 8 horas de sono diárias, às quais ainda junta uma pequena sesta após o almoço. Não há nenhum plano feito a régua e esquadro: há tantos anos que Kol sabe o que é isto de competir profissionalmente que já lhe está na memória, como se fosse apenas necessário carregar num botão para entrar em modo preparação. Tal como na alimentação: muitas carnes brancas, muito peixe, muitos hidratos de carbono. “Sou magrinho, não tenho reservas nenhumas”, brinca.

Tão magrinho que até lhe deram a alcunha de - e já que estamos a falar de hidratos de carbono - “Esparguete Assassino”. Foi um primo que lhe colocou o nome, em casa. “Mas, tem graça, de repente comecei a ver em alguns blogues do Sporting a referência a ‘Esparguete Assassino’ quando falavam de mim. Devem ter pensado o mesmo que o meu primo”.

A uma semana e meia do combate, é hora de fazer alguns sacrifícios. Kol está com 64 quilos e no dia da pesagem não pode ter mais de 62. Esta tarde há bifes de perú grelhados para o almoço, sem ponta de gordura. Durante estes meses, Kol teve de abdicar de alguns pitéus, mas nada que tenha influído em demasia na sua rotina habitual. “Nem sou muito dessas coisas, mas cortei em tudo o que são fritos e gorduras. Até as ditas gorduras boas, como os frutos secos, porque tudo o que tem gordura atrasa a digestão”. No processo, aprendeu a gostar de beterraba, alimento que, diz, “ajuda em muito na performance dos atletas”.

O pior mesmo é a vida social. “Eu gosto muito de ir para a festa e é capaz de ser das coisas que mais me custa. Não me posso deitar tarde, isso é mesmo impossível. Por exemplo, num jantar de amigos, se calhar eles ficam até às 5 da manhã e eu fico até à meia-noite. Custa-me isso, estar ali a conviver e depois ter de vir embora”.

Já em miúdo, essa era a parte mais dolorosa: Kol admite que nunca ia com gosto para os treinos. “Porque saía da escola e os meus amigos iam todos para o café, para as pastelarias, comer aquelas coisas todas, enquanto eu comia uma peça de fruta”. Nessa altura, a disciplina de treinar todos os dias foi decisiva para não desistir. “Agora penso e acho que se só treinasse três vezes por semana tinha sido mais difícil. Porque ia ter aquela tendência do ‘Ah, não vou hoje, posso ir amanhã’. Eu sabia que tinha de treinar todos os dias, por isso não havia volta a dar”, confessa.

E também lhe custavam os treinos porque no Sporting estavam os melhores e todos os dias Kol levava aquilo que chama de “sovas valentes”. Mas quando acabava o treino, vinha aquela sensação. “Não há nada como a sensação pós-treino, a sensação da superação, de poder dizer ‘Está feito!’. Isso deixava-me contente, era isso que me agarrava ali”.

A adrenalina é uma droga poderosa.

E por falar em “sovas valentes”, depois da sesta que se segue ao almoço, vem aí uma das antigas.

O diabo

A noite já cai em Lisboa quando Pedro Kol desce para a cave do ginásio de Pedro Correia, personal trainer que o acompanha nesta empreitada até ao título europeu. “Costumo chamar-lhe o Diabo”, diz-nos Pedro, o Kol, de forma antecipada. Não demoramos muito a perceber o porquê. Tal como o treino no ringue pela manhã, também este será curto mas muito intenso.

Mesmo muito intenso.

Pedro Correia olha para o bloco de notas e, de sorriso trocista no canto da boca, apresenta o cardápio. O treino começa com 500 metros numa máquina de remo. É duro, mas Kol, apesar de já encharcado em suor, ainda está com forças para brincar.

Em breve não as terá.

Para o próximo exercício, Pedro Correia surge com uma caixa de madeira. Kol terá de a subir e descer, com uma perna de cada vez e um saco de cinco quilos às costas. Isto o mais rapidamente possível durante 30 segundos, numa série de seis com 30 segundos de descanso entre cada uma delas.

Pedro Correia põe música no telemóvel. Começa com “Thunderstruck” dos AC/DC, mas talvez a música mais adequada à ocasião fosse o “Highway to Hell” porque o que vem aí é penoso.

Após a primeira série, o treinador pergunta: “Como foi?”. Já não tem resposta. A cara de esforço de Kol diz tudo.

À segunda série, enquanto Axl Rose dos Guns n’ Roses canta “In the jungle, welcome to the jungle/ Watch it bring you to your knnn knne knees, knees/I'm gonna watch you bleed”, Pedro Kol lança os primeiros palavrões. É a primeira vez que perde a compostura - porque nem um lutador é de ferro. É impressionante como uma uma simples caixa de madeira quase consegue quebrar um homem.

- Quanto falta?
- Bora, bora, BORA!

Com Pedro Correia não há cá espaço para perguntar se falta pouco. Há rigor, há berros, não há piedade.

Enquanto Bruce Springsteen canta o atribulado regresso de um veterano da Guerra do Vietname a casa no “Born in the USA” e Kurt Cobain jura que não tem uma arma (o que a história veio a provar ser mentira), Kol continua a subir e a descer aquela diabólica caixa de madeira. Um sobe e desce que também nos cansa, tal o esforço, tal a carga, tais são os esgares de sofrimento que o lutador lança, como se aquela caixa fosse mais poderosa que qualquer adversário dentro de um ringue. E depois ainda há os gritos omnipresentes de Pedro Correia.

- Deixa-te de merdas, o teu corpo aguenta muito mais!

Kol está de rastos, mas ainda só vamos a meio.

Segue-se um exercício no saco de boxe: Kol tem de o atingir, mas para isso tem de ser mais forte que a corda que tem à volta da cintura e que Pedro Correia puxa com toda a força que tem. A dureza do exercício não combina com aquele riff “wah-wah” do “Money for Nothing" dos Dire Straits.

- Estás a guardar-te, Pedro!
- Não estou, caralho!

Há um certo desespero na voz de Kol. O treinador irritou-o e o objetivo era mesmo esse. “Eu mexo com a cabeça dele. Acho que às vezes eles acabam por puxar só para não me ouvirem!”, brinca Pedro Correia.

Na reta final do treino, Pedro Correia deixa os grandes clássicos do rock e coloca uma música que diz muito ao lutador: “Mantém-te firme”, de Boss AC. É o tema com que Pedro Kol entra no ringue a cada combate, cuja letra tem tudo a ver com o momento, stricto e lato sensu. Tem a ver com este momento específico, de um treino de esforço quase excruciante, e com o momento com “M” grande que são os últimos meses, um período de trabalho diário para recuperar um título que em boa parte fugiu por motivos que escaparam ao controlo de Kol.

Mantém-te firme,
quando pensares que não consegues lutar,
que o mundo vai acabar,
ouve a voz dentro de ti!

“Ele pôs a música de propósito no último round do treino para dar aquela força”, atira Pedro Kol. “Gosto da mensagem: às vezes uma pessoa quer desistir e há uma voz interior que diz ‘mantém-te firme, ão desistas’”.

O combate

É domingo, 18 de fevereiro e é dia de touros no Campo Pequeno. Não touros de verdade, mas sim os touros enraivecidos do kickboxing. O ringue está no meio da arena, à volta dele há mesas. Isto não é Las Vegas, mas há ali um cheirinho a showbiz: de um lado do ringue está a família de Pedro Kol, do outro muitas caras conhecidas, daquelas que nos habituámos a ver nas novelas, nos programas de televisão. Muitos deles treinam na academia de Kol. Atrás do palco estão Hugo Viana e Ruben Amorim, antigos futebolistas.

Cruzam-se muitos mundos esta tarde na arena do Campo Pequeno.

A mãe de Pedro é das primeiras a chegar. É mais um combate para Teresa Netto de Almeida - já nem os conta porque nunca perdeu um que fosse. Na véspera, durante a pesagem, Teresa recusou estar nervosa.

Bem, comme ci, comme ça.

“Normalmente fico nervosa até à entrada do adversário, porque acho sempre que ele é enoooooorme comparado com o Pedro. Mas depois passa”, conta. Então e porque é que se dá esse clique? “Porque tenho muita confiança nele”.

Ver um filho a ser esmurrado deixa sempre uma mãe com o coração nas mãos e Teresa tem muitas vezes de ouvir perguntas do género “Como é que tens coragem de ir ver o teu filho a combater?”, às quais ela normalmente responde com outra pergunta. “Digo-lhes: ‘Mas como é que eu posso deixar de acompanhar o meu filho naquilo que é a sua paixão?’”, conta a mãe do lutador, que já não vê o kickboxing como um desporto violento: “As pessoas acham que é uma grande violência mas tudo nos combates é bastante controlado. O meu outro filho montava a cavalo, fazia saltos: eu acho que é mais perigoso”.

Normalmente, nada como um bom tratamento do choque para os medo desvanecerem. “A primeira vez que vi o Pedro combater, fui com a minha sogra. Antes dele entrar em ação havia 19 combates. Quando chegou o combate dele, acreditem, estávamos preparadas para tudo!”.

Talvez por isso, Teresa chega cedo e gosta de assistir a todos os duelos que precedem o combate do filho: por incrível que possa parecer, é algo que a tranquiliza.

Em 2015, depois do filho ter conquistado o título mundial, frente ao chinês Jin Jintuo, Teresa confessa que ficou com uma certa esperança que Pedro se afastasse dos ringues. “Nós, pais, temos sempre aquela preocupação que algo aconteça. Quando ele foi campeão do Mundo disse-lhe ‘Pedro, fechaste um ciclo com chave de ouro. Se calhar já chega’. Mas pelos vistos ainda não chegou para ele”. Do filho, Teresa gosta de sublinhar o carácter: “É uma pessoa que pensa nos outros e é muito determinado”. Pedro é também extrovertido, mas quando está em preparação “fica mais fechado sobre si mesmo, muito concentrado”.

Lá em cima, nos camarins, Kol dá razão à mãe: a poucas horas do combate, tenta controlar as emoções. Em frente ao espelho, vai suspirando. Parece tenso, mas fechado, de olhar absorto, completamente alheado da confusão que se instala nos corredores. Por todos os cantos há lutadores a aquecer, a preparar as luvas, a ouvir as últimas indicações dos treinadores. Os primeiros combates do evento estão prestes a começar.

Lá fora, no parque infantil que ladeia a praça de touros, crianças brincam despreocupadamente, casais passeiam cães, miúdos aprendem a andar de bicicleta: é um domingo como outro qualquer.

Mas não ali dentro.

Ali há um intenso cheiro a Vicks Vaporub misturado com aerossóis variados, tão forte que nos ardem os olhos e latejam as têmporas. É possível que seja esse o cheiro da tensão, da valentia e do nervosismo. Numa das mesas está abandonado um chocolate a quem só tiraram uma dentada, a última dentada de energia, o último trago de coragem.

Enquanto lá na arena já se combate e as mesas e bancadas vão enchendo, Pedro começa o derradeiro aquecimento. “Estás a mexer bem a cabeça, Pedro. Mas mais velocidade. Esse circular é muito importante. Boa, boa!”

Fernando Fernandes vai dando uma indicação aqui e ali, guia-o numa repetição dos movimentos que fizeram vezes sem conta nos últimos seis meses e que ficarão condensados naqueles 20 minutos que dura o combate.

“Mais soltinho e menos força. Menos força, Pedro. Velocidade e progressão. Progressão.”

Nos momentos de pausa, Pedro caminha em círculos. Talvez se esteja a recordar dos exercícios de meditação que tantas vezes o ajudaram a aliviar a ansiedade nos últimos meses.

Está quase na hora.

Na arena, o público entusiasma-se com o aproximar da hora do combate de Kol. Depois de um pequeno intervalo no evento, chega finalmente o combate do ano, o combate do título europeu, aquele que todos ali querem que seja de desforra.

Alessandro Moretti é o primeiro a entrar. Aplaude-se o rival, porque aqui pode haver murros e pontapés, mas há, essencialmente, muito fair-play.

E é então que é anunciado Pedro Kol e o Campo Pequeno se levanta em êxtase.

Ele chega, ao som de “Mantém-te firme”, a sua música.
Mantém-te firme,
não te esqueças que podes sempre escolher,
ninguém te pode vencer,
usa a força dentro de ti!

Antes de caminhar para o ringue, ajoelha-se, tem o seu momento. Manuela Moura Guedes aproxima-se, bate com o punho na plataforma que o leva ao lugar em que enfrentar Moretti. Kol não se desconcentra: levanta-se, morde o lábio como quem diz “Vamos a isso” e segue para o ringue. Ouvem-se os hinos, o português dá um beijo na luva, outro no cinturão que quer conquistar e começa o combate.

Eles já se conhecem. Ainda há menos de um ano Kol e Moretti estavam a combater pelo mesmo objetivo, mas o 1.º assalto é para se estudarem. É equilibrado, tático.

Moretti é um trocista. A cada murro que leva, a cada ação à qual não consegue responder faz uma cara de gozo como quem diz ao adversário “Nada de especial” ou “É só isto que tens para mim?”. E tal como naquele dia há uma semana e meia, em pleno trânsito, Pedro não se deixa influenciar nem um bocadinho, tal é o grau de controlo e concentração.

Ao 2.º assalto, aquilo que Kol mais temia: o português não consegue defender um pontapé de Moretti na perna e, quando volta a olhar, há um fio de sangue a sair da mesma ferida que em abril passado fez parar o combate.

Entre quem assiste trocam-se olhares. Ouvem-se sons de preocupação. Poderá acontecer o mesmo de há um ano? Poderá a sorte ser assim tão maldosa com o português? Entram os médicos, a hemorragia é, por ora, estancada.

O combate vai continuar.
Mantém-te firme

Há quem não lide bem com o infortúnio e há quem encontre nele uma qualquer força para não desistir. Kol parece ser deste último campeonato. Foi com o sangue a jorrar da perna, com a possibilidade do combate ser interrompido e com a guilhotina ali omnipresente que o português ficou definitivamente por cima do combate.

A meio do 3.º assalto, o italiano vai pela primeira vez ao tapete. O árbitro começa a contagem, mas no último segundo, Moretti levanta-se. Mas nunca mais conseguirá fazer mossa a Kol, cuja preocupação essencial passa a ser estancar o sangue da perna a cada pausa, enquanto o público faz um barulho ensurdecedor, que ressoa nos ouvidos e faz a adrenalina da sala rebentar.

A resistência de Moretti termina à entrada do último minuto do 5.º e derradeiro round: com um poderoso superman punch de direita, Kol não deixa que seja o júri a decidir a vitória: ele consegue-a com as próprias mãos, porque as melhores vinganças servem-se assim. Kol sobe para as cordas, festeja com os seus. A mãe, na primeira fila, como sempre na primeira fila, aponta para o filho e ele aponta para ela. “Como podem ver, não é preciso interromper um combate profissional por causa de uma ferida numa perna”, dispara Kol quando lhe dão um microfone para as mãos - há um ano que a frase lhe estava ali entalada na garganta.

O pós-combate

“Então, acham que temos futuro nisto?”.

No regresso ao camarim, Fernando Fernandes é só sorrisos. Brinca com quem passa, mas não age como se lhe tivessem tirado um peso de cima: fala como alguém que nunca sequer teve dúvidas sobre a vitória do pupilo.

Há muitos beijos para distribuir, parabéns para agradecer, uma ferida para tratar. Passam largos minutos, quase uma hora até Pedro Kol conseguir chegar ao camarim, até conseguir sentar-se e sorrir de alívio, de alegria, até olhar para o espelho e ver as mazelas de guerra no rosto.

“Isto parecia de filme! Foi a minha vitória mais saborosa, de longe. O desenrolar do combate, o recuperar de um título, neste palco, com tanta gente a apoiar-me… foi incrível!”, desabafa o agora tricampeão da Europa, feliz por desta vez o combate ter chegado ao fim. “A hemorragia foi igual à de Itália e fiquei um bocadinho apreensivo quando vi o sangue na perna. Mas não ‘paniquei’ [risos]”.

Kol admite que ficou por momentos com medo que os responsáveis parassem o combate mas que esse medo acabou por ter um efeito positivo. “Porque a certa altura pensei ‘eles ainda me vão parar o combate, tenho mesmo de tentar acabar com isto rápido’”. Talvez por isso tenha ficado por cima a partir do 2.º assalto, ainda que o combate tenha sido um clássico à Kol: sempre em crescendo.

Começamos a falar daquele murro-superhomem de direita que fechou com glória uma caminhada de seis meses. Kol corrige-nos: “Hum, 19 anos”.

Será esta uma forma de dizer que para Kol já chega, como desejava a mãe? “Não sei, não sei… vamos ver. Quando estou muito amassado não é a melhor altura para me perguntarem o que vem a seguir”.

Haverá tempo para pensar nessa pergunta. Esse Adamastor das perguntas para quem acabou de atingir um objetivo, ainda para mais com contornos da mais bela da ficção. “E agora, o que vem a seguir?”. Até lá, Kol não quer pensar nisso. Diz que quer descansar, comer o que lhe apetecer, estar com os amigos. “Quero fazer aquilo que abdiquei durante estes meses todos”.

Esta noite é para celebrar, Kol e a sua equipa, que esteve sempre na retaguarda: “Vamos beber umas cervejinhas”.

Segunda-feira não há aulas na academia.


Créditos

TextoLídia Peralta Gomes FotografiaJosé Caria Vídeo e ediçãoAndré Atayde, Rita Madaíl Gil e Tiago Pereira Santos Web DesignTiago Pereira Santos Web DeveloperMaria Romero Coordenação editorialPedro Candeias, Joana Beleza, Germano Oliveira
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